DIAGNÓSTICO PRECOCE DA SURDEZ NA INFÂNCIA


EARLY IDENTIFICATION OF HEARING LOSS IN CHILDHOOD
Myriam L. Isaac1, Alessandra K S Manfredi2

1Docente. Divisão de Otorrinolaringologia. Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Faculdade de Ribeirão Preto – USP. 2 Fonoaudióloga. Setor de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP Correspondência: Myriam L. Isaac. Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Divisão de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Avenida Bandeirantes, 3900. Campus Universitário - Monte Alegre 14.048-900 - Ribeirão Preto – SP. Fone: (16) 3602-2863 - Fax: (16) 3602-2860. mylis@fmrp.usp.br

Isaac ML, Manfredi AKS. Diagnóstico precoce da surdez na infância. Medicina (Ribeirão Preto) 2005; 38 (3/4): 235-244.

RESUMO: A audição é importante na comunicação humana. Perda auditiva na criança pode acarretar distúrbios na aquisição da fala, linguagem e no desenvolvimento emocional, educacional e social. O diagnóstico precoce de deficiência auditiva permite a intervenção e o ideal é que ambos ocorram nos primeiros 6 meses de vida. A triagem auditiva neonatal universal é recomendada pois avalia todos os recém-nascidos e não apenas aqueles com indicadores de risco para perda auditiva. Embora existam testes comportamentais para a avaliação auditiva, os exames ideais são os objetivos, tais como as emissões otoacústicas e os (EOA) potenciais evocados auditivos de tronco cerebral, pois são exames eletrofisiológicos que não dependem da participação da criança, sendo úteis em recém-nascidos e crianças pequenas. As emissões otoacústicas avaliam a função coclear e o potencial auditivo evocado avalia a função auditiva até o tronco cerebral. Ambos são usados na triagem auditiva neonatal embora o
registro das EOA seja o mais comum por ser de aplicação mais fácil e rápida.

Descritores: Crianças. Audição. Deficiência Auditiva. Triagem Auditiva.

1- CONCEITO, CLASSIFICAÇÃO, EPIDEMIOLOGIA

A habilidade de comunicação é um traço distintivo da existência humana, sendo um dos maiores contribuintes para o bem estar de qualquer indivíduo. A audição é considerada a pedra angular sobre a qual se constrói o intrincado sistema da comunicação humana1. Neste sentido, a privação sensorial auditiva na criança compromete não só a sua comunicação, mas seu potencial de linguagem receptiva e expressiva, sua alfabetização (leitura e escrita), seu desempenho acadêmico, seu desenvolvimento emocional e social2. De acordo com Roslyng-Jensen3, uma perda auditiva em uma criança é qualquer comprometimento da audição que reduza a inteligibilidade da mensagem falada a um grau de inadequação para interpretação
apurada ou para aprendizagem. A deficiência auditiva é definida como uma diminuição
da acuidade auditiva na qual há  um desvio ou mudança das estruturas ou da função auditiva, situando-se fora dos limites da normalidade4,5,6.

Fisiologicamente, o feto tem seu sistema auditivo periférico totalmente formado na 20a semana de gestação, em função disso, ele ouve os sons corporais da mãe, os batimentos cardíacos dela e a voz materna durante os 4 meses que antecedem seu nascimento1. Mas, ouvir envolve não apenas detectar os sons, atividade esta realizada pelo sistema auditivo periférico, mas também perceber, compreender, localizar, dar atenção, analisar, armazenar e memorizar a informação
sonora, habilidades essas realizadas pelo sistema nervoso central7,8,9. O tipo da perda auditiva está relacionado ao segmento anatômico em que a lesão está situada, podendo ser classificada em perda auditiva condutiva, na qual as ondas sonoras não atingem a orelha interna de forma adequada em função de alterações na orelha externa e/ou média (membrana do tímpano, cadeia
ossicular, janelas redonda ou oval, ou mesmo a tuba auditiva); perda auditiva neurossensorial, cujas causas estão localizadas na cóclea e/ou no nervo coclear (neste caso de deficiência auditiva o aparelho transmissor de som encontra-se normal, perda auditiva mista, na qual o deficiente auditivo possui componentes condutivos e neurossensoriais na mesma orelha, e perda auditiva central, quando os distúrbios auditivos que ocorrem são em conseqüência de lesões
na via auditiva central6,7,10. Russo e Santos7, citando Davis e Silvermann11, referem que, em relação ao grau, as perdas auditivas  podem ser classificadas da seguinte forma para indivíduos
adultos: audição normal 0 a 25 dB; perda leve 26 a 40 dB; perda moderada 41 a 71 dB; perda severa 71 a 90 dB; perda profunda acima de 91 dB. Para crianças a classificação quanto ao grau de acordo com Northern e Downs1 é: audição normal 0 a 15 dB; perda discreta 16 a 25 dB;  perda leve 26 a 40 dB;  perda moderada 41 a 70 dB; perda severa 71 a 90 dB; perda profunda acima de 91 dB. As deficiências auditivas também podem ser classificadas quanto ao momento em que elas ocorrem. Se a perda auditiva se dá antes ou durante o nascimento, é chamada perda
auditiva congênita e se ocorre após o nascimento é chamada perda auditiva adquirida 7. Ainda de acordo com essas autoras, o diagnóstico preciso da causa da deficiência auditiva é de suma
importância, tanto para sua prevenção como para a adequação dos métodos fonoaudiológicos e   educacionais que deverão ser utilizados na reabilitação e/ou na habilitação de uma criança com deficiência auditiva, ou seja, o processo de (re)habilitação de uma criança com alterações sensoriais deve ser diferente daquele que será empregado para uma criança com alterações
condutivas ou centrais. Assim, conhecendo-se o local, o grau, o momento em que ocorreu e a origem do problema, pode-se adequar melhor todo o trabalho de (re)habilitação subsequente. De acordo com Granato, Pinto, Ribeiro12, a deficiência auditiva é a forma mais comum de  desordem sensorial no homem, sendo que aproximadamente 50% das deficiências auditivas profundas possuem etiologia genética. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 5% da população de qualquer país é portadora de algum tipo de deficiência. Portanto, baseados
nas informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística13 na população brasileira de 168.288.748 habitantes, teríamos 8.414.437 de deficientes. Estimando que 15% da população deficiente seja de deficientes auditivos, seriam então 1.262.166 indivíduos portadores de alguma perda auditiva, não considerando o grau e tipo de perda14. No Brasil, nos últimos anos,  programas de identificação precoce dos distúrbios de audição vêm sendo desenvolvidos junto à população, utilizando tanto métodos de triagem comportamental como eletrofisiológicos.
Nestes estudos foi possível observar a ocorrência de disacusia sensorioneural entre 2,5 a 9% em
crianças de alto risco e de 0,2 a 0,85% em crianças sem risco; as alterações de orelha média variaram na faixa de 8,5 a 15% na população sem risco e de 25 a 35% na população de alto risco15/18. Segundo o Comitê Brasileiro de Perdas Auditivas na Infância19, a incidência de perda auditiva bilateral significante em neonatos saudáveis é estimada entre 1 a 3 neonatos em cada 1000 nascimentos e em cerca de 2 a 4 em 1000 nos provenientes de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ainda de acordo com o referido Comitê, dentre as doenças passíveis de triagem
ao nascimento, a deficiência auditiva apresenta alta prevalência (fenilcetunúria 1:10.000; hipotireoidismo 2,5:10.000; anemia falciforme 2:10.000 e deficiência auditiva 30:10.000).
Conforme descrito no estatuto ASHA5 a criança de risco é aquela com potencial para desenvolver  uma desordem baseada em fatores biológicos específicos, ambientais ou comportamentais, sendo que este termo também pode ser aplicado à população assintomática.
Essas crianças, devido às intercorrências pré, peri e pós-natais a que estão sujeitas e a uma maior exposição a fatores iatrogênicos, ficam propensas a apresentar vários desvios do desenvolvimento global, inclusive do desenvolvimento da audição20. De acordo com Lichtig21, o recém-nascido de alto risco é aquele que tem grande possibilidade de se tornar deficiente auditivo, seja por causa hereditária, doença congênita, anomalias físicas, acidentes perinatais
ou por quaisquer outras razões que caracterizem uma predição a ser confirmada ou refutada no
futuro, num diagnóstico audiológico. Consideramos risco para deficiência auditiva periférica e/ou central bebês que tiverem a presença de um ou mais indicadores de risco para distúrbio da
audição de acordo com os critérios sugeridos pelo Joint Committee On Infant Hearing22, acrescidos por critérios de Azevedo15, conforme as Tabelas I e II, respectivamente.


2- DIAGNÓSTICO E PREVENÇÃO DA DEFICIÊNCIA AUDITIVA

O futuro de uma criança nascida com deficiência auditiva significativa depende muito da identificação precoce (isto é, diagnóstico audiológico antes dos 12 meses de idade) seguida pela intervenção imediata e adequada. Se as crianças deficientes auditivas não são identificadas precocemente, é difícil para muitas delas adquirirem habilidades fundamentais de linguagem,
sociais e cognitivas que forneçam o fundamento para posterior escolarização e sucesso na sociedade. Quando a identificação e a intervenção precoces ocorrem, crianças com deficiência auditiva obtêm grande progresso, são melhores sucedidas na escola e tornam-se membros mais produtivos na sociedade. Quanto mais cedo a intervenção e a habilitação iniciam, mais significativos/efetivos são os benefícios2,23,24,25. Os primeiros dois anos de vida têm sido considerados como período crítico para a aquisição e desenvolvimento das habilidades auditivas e da linguagem. Durante o primeiro ano ocorre a maturação do sistema auditivo central. A experimentação sonora adequada neste período de maior plasticidade tornase imprescindível1,26,27.
Como mencionado anteriormente, há um consenso de que a identificação da deficiência auditiva
no primeiro ano de vida assegura a aquisição e desenvolvimento de linguagem. Portanto, um atraso na detecção de uma perda auditiva pode trazer sérios danos ao desenvolvimento da criança, ou seja, quanto mais precocemente for detectada e tratada uma perda auditiva, melhor será o prognóstico do desenvolvimento da linguagem, das habilidades acadêmicas e da
interação social da criança1,7,23/30. Em nível primário de atenção, Azevedo15 relata que a prevenção deveria ocorrer no período pré-patogênese, com o objetivo de evitar a ocorrência de alterações auditivas. Um programa de prevenção audiológica deve possuir as seguintes medidas: conscientização e orientação da população para maior controle dos fatores etiológicos dos distúrbios da audição e orientação a profissionais da área da saúde e da educação, através de aulas e palestras, ressaltando-se a importância da prevenção da deficiência auditiva. Faz
necessário medidas de proteção como a imunização materna, combate das moléstias infecto-contagiosas tais como: a rubéola; a meningite e a caxumba; dar ênfase na assistência à saúde da gestante e do neonato; maior importância ao acompanhamento genético e por fim instituir medidas para reduzir a ocorrência de perdas auditivas flutuantes por infecção da orelha média nos primeiros anos de vida. Em nível secundário de atenção, em 1982 e novamente em 1990, o Joint Committee on Infant Hearing defendeu a triagem auditiva de bebês por volta dos três meses de idade. Recomendou-se que, o processo diagnóstico fosse realizado e que a habilitação
fosse iniciada por volta dos seis meses de idade5. Em 19945, esse Comitê reforçou sua posição defendendo a detecção antes dos três meses de idade. Embora o Comitê tenha reconhecido que nem sempre é possível atender estas diretrizes, a recomendação representa um ideal endossado e defendido pelos audiologistas, médicos, educadores e outros preocupados com a habilitação das crianças surdas ou com dificuldade para ouvir. A prática real, no entanto, fica um pouco distante deste objetivo. Inúmeros estudos 24,25,31,32,33 relatam que as idades atuais da identificação
da deficiência auditiva ocorrem substancialmente após os seis meses de idade. Para crianças
com perda auditiva severa, as idades variaram entre 12,6 e 19 meses de idade.
As crianças com deficiência auditiva de grau moderado e sem riscos conhecidos tiveram a maior
idade de identificação (43 meses). A situação pode até ser pior em crianças com perdas auditivas leves e unilaterais as quais não são freqüentemente identificadas antes dos 5 a 6 anos de idade1,2,7,27,28,29,30,34. No Brasil, o período de tempo entre a suspeita da família e o diagnóstico
audiológico é muito longo. Geralmente a suspeita ocorre no primeiro ano de vida e o diagnóstico entre o segundo e terceiro ano de vida, perdendo assim o período crítico de aquisição e desenvolvimento de linguagem citado anteriormente26.

2.1- Métodos diagnósticos

Quanto à identificação e ao diagnóstico precoces os meios mais efetivos e recomendados em vários países para detectar problemas auditivos no recém-nascido são métodos de triagem auditiva associados ao registro de alto risco, recomendam a implantação da triagem auditiva neonatal universal, ou seja, avaliar as condições audiológicas de todas as crianças ao nascimento ou no máximo até os três meses de idade sendo que, no caso de deficiência auditiva confirmada, receber intervenção educacional até os seis meses1,5,29.
Dentro de um programa de detecção precoce da deficiência auditiva é importante ao avaliador desenvolver um trabalho especializado que exija tanto o conhecimento do desenvolvimento normal da audição quanto do método de triagem a ser empregado. Vários procedimentos para identificação e avaliação da audição do recém-nascido têm sido aplicados como triagem auditiva neonatal. Estes podem ser divididos em dois grupos distintos: triagem auditiva
comportamental (avaliação subjetiva) e triagem auditiva eletrofisiológica (avaliação objetiva). A triagem auditiva comportamental (Figura 1) baseia-se na observação da mudança do comportamento ou na observação das respostas motoras do recém-nascido após apresentação do estímulo sonoro calibrado ou não.

Em função de seu baixo custo e da não necessidade de aparelhagem de alta tecnologia, esta é uma forma  de triagem muito difundida no Brasil30.
Uma série de técnicas comportamentais têm sido utilizadas na prática clínica, as quais podem fazer uso de estímulos de banda larga de grande intensidade, ou com uma faixa de ruído concentrada em torno de 3000Hz . Pode ser utilizado o Crib-O-Gram, cujos transdutores sensíveis ao movimento são colocados sob o berço do bebê para detectar respostas motoras
frente a um ruído intenso35. O Auditory Response Cradle é um equipamento que monitora as várias respostas comportamentais/fisiológicas na presença do estímulo sonoro. Tal estímulo é apresentado em cada orelha através de um fone auricular, num intervalo de tempo de 5 segundos. A instrumentação ajustada ao berço permite que as respostas auditivas, como de
susto, movimento de cabeça, movimentos corporais e respiratórios sejam registrados26.
No entanto, o procedimento de triagem comportamental que mais se utiliza é a observação das
respostas, por meio de uma bateria de sons instrumentais e entre elas o reflexo cócleo-palpebral30.
Em 1982, o Joint Committee on Infant Hearing recomendou a identificação de crianças de risco para perdas auditivas através da utilização de uma lista de fatores de risco e a realização de acompanhamento audiológico até que limiares auditivos fidedignos fossem obtidos. Em 1990, a recomendação americana  foi alterada expandindo a lista de fatores de risco e sugerindo um protocolo audiológico específico com aplicação do potencial auditivo de tronco encefálico
(PAETE) /Brainstem Evoked Responses Audiometry (BERA) (Figura 2).

 

Em 1994, o Joint Committee on Infant Hearing endossa a proposta de promover a detecção precoce da deficiência auditiva e recomenda a utilização de duas técnicas fisiológicas, o BERA e as emissões otoacústicas (Figura 3)5.

Cada uma dessas técnicas possui informações diferentes da audição, contendo suas vantagens e desvantagens, sendo que uma técnica não substitui a outra e
sim a complementa18,28,36/40. A vantagem está no fato dos procedimentos de triagem eletrofisiológica apresentarem menor número de falsos-positivos (crianças que falham na triagem, mas não se constata perdas auditivas) e falsos-negativos (crianças que passam na triagem e posteriormente se constatam perdas auditivas), comparados às técnicas utilizadas na triagem comportamental30,41. A técnica eletrofisiológica mais utilizada nos últimos vinte anos tem sido a Audiometria de Respostas Elétricas de Tronco Cerebral, o BERA. É o registro
das respostas elétricas desencadeadas  por um estímulo sonoro ao longo da via auditiva desde o nervo coclear até o tronco encefálico podendo estimar o limiar de sensibilidade auditiva e a integridade neuro funcional das vias auditivas. É um método rápido, não invasivo, objetivo, de alta precisão, cujas respostas são estáveis e podem ser detectadas na presença de problemas
condutivos mínimos. Se nenhuma resposta for captada no nível da triagem, o nível do estímulo pode ser aumentado para pesquisa do limiar; as respostas podem ser detectadas em ambientes relativamente ruidosos, tais como a UTI e estas não são influenciadas pelo sono do bebê. Porém  pode haver algumas controvérsias em sua utilização em recém-nascidos de risco uma vez que as condições neurológicas do bebê podem levar a resultados duvidosos em função da imaturidade do sistema nervoso. O registro dos Potenciais Evocados Auditivos de Tronco Encefálico é
um recurso importante no diagnóstico audiológico infantil, tanto para estabelecimento
da sensibilidade auditiva quanto da integridade neural das vias auditivas, desde o nervo coclear até o tronco encefálico. Tem aplicabilidade clínica, além da triagem auditiva neonatal, na
avaliação da maturação das vias auditivas42; avaliação de crianças que não colaboram em testes auditivos comportamentais; no diagnóstico diferencial de distúrbios de comunicação e de desenvolvimento. pode ser empregado para avaliação da maturação de tronco encefálico em prematuros, anóxia perinatal, hiperbilirrubinemia, sepsis, meningite neonatal, hemorragia cerebral. O equipamento é de alto custo e o examinador deverá conhecer a anatomofisiologia da audição até o tronco cerebral e o desenvolvimento e maturação do sistema auditivo; ter habilidades específicas para realizar este exame, assim como ter experiência para interpretar
os dados. O exame completo dura em torno de 25 a 30 minutos, e se for necessário, o paciente
poderá ser sedado. Os eletrodos de registro devem estar posicionados no couro cabeludo do bebê e nos lóbulos das orelhas; e o click acústico é o estimulo geralmente mais utilizado e concentra sua energia na faixa de 2000 e 4000 Hz. Assim a resposta não fornece informações sobre as condições auditivas nas freqüências mais baixas2,6,27,28,36,39,40. Devido a isso deve
ser associado a outros teste auditivos para estimar-se a real situação auditiva antes do início da reabilitação.
Outro teste para avaliação objetiva do sistema auditivo periférico pré-neural, com grande aplicabilidade clínica é o registro das Emissões Otoacústicas. Estas são um tipo de energia acústica, descritas por KEMP43, geradas pela contratividade das células ciliadas externas durante o mecanismo ativo da função coclear que se propagam à orelha média e conduto
auditivo externo onde podem ser capitadas37. As EOAs podem ser espontâneas ou evocadas.
As espontâneas estão presentes na ausência de estimulação acústica. Podem ser registradas e ocorrem em 45 a 60% dos indivíduos com audição normal; não têm aplicação na rotina clínica44,45.  As EOAs evocadas ocorrem em 98% dos indivíduoscom orelhas normais. Podem ser subdivididas em três grupos de acordo com a forma de estímulos que as desencadeiam: a) Emissões Otoacústicas Evocadas Transientes; b) Emissões Otoacústicas Produtos de Distorção; c) Emissões Otoacústicas por Estímulos - Frequência. As Emissões Otoacústicas mais utilizadas clinicamente são as Transientes e as Produtos de Distorção, sendo que as Transientes são as mais recomendadas para a Triagem Auditiva Neonatal por ser de maior rapidez de execução36 .
Os equipamentos para registro das EOAs são atualmente portáteis e podem ser transportados com facilidade para o berçário, a unidade de terapia intensiva neonatal e/ou para o ambulatório. São constituídos por uma sonda a ser acoplada ao meato acústico externo e conectado a um sistema de pré-amplificação, amplificação, conversor analógico-digital, processador digital, gerador de sinais e a um computador. O ambiente de exame deve ser silencioso; a criança deve estar calma. A presença de vernix ou cerume e/ou distúrbios de orelha média podem  comprometer o resultado. Atualmente as emissões otoacústicas evocadas EOAEs parecem
ser o melhor procedimento de triagem para a detecção precoce da deficiência auditiva, pois estas representam respostas da cóclea e não dependem da maturidade do sistema nervoso
central para serem observadas, não há a necessidade de colocar eletrodos de registro, é uma técnica rápida, fácil de interpretação, não invasiva e de alta especificidade de sensibilidade46.
Esta técnica representa um importante avanço na pesquisa da perda de audição em recém-nascidos normais e de risco para deficiência auditiva2,6,27,28,36,37,39,40,47,48, sendo que o National Institutes of Health  Consensus Development Panel de 1993 recomenda a sua utilização
como procedimento inicial de triagem seguida por um teste de resposta auditiva de tronco encefálico em todos os bebês que falharem no teste de emissões otoacústicas transientes.
O Comitê Brasileiro de Perdas Auditivas na Infância19 recomenda a triagem auditiva universal, a
ser realizada até a alta hospitalar, do neonato preferencialmente por métodos eletrofisiológicos como as EOAs Evocadas e/ou registro dos Potenciais Evocados Auditivos de Tronco Encefálico e na falta de recurso por métodos comportamentais, principalmente pela pesquisa do reflexo cócleo-palpebral.

2.2- Triagem Auditiva Neonatal

Segundo Weber e Diefendorf2, se for tomada a decisão de iniciar um programa de intervenção precoce, existem algumas razões determinantes para que a triagem seja realizada na unidade neonatal, antes da alta do bebê:

• durante os primeiros dias de vida os recém-nascidos passam grande parte do dia em sono calmo, o que é ideal para triagem auditiva. A extensão dos períodos em silêncio reduz à medida que eles vão crescendo;

• a visita à unidade neonatal possibilita a supervisão de um número grande de bebês. A seleção de um bebê para a triagem pode ser feita com base em fatores como data de alta antecipada, estado de sono. Mesmo se um bebê não estiver pronto para a triagem, geralmente há um outro que pode ser avaliado. Como resultado, vários bebês podem ser rotineiramente testados durante uma única visita;

• se houver a necessidade de acompanhamento, isto pode ser integrado ao resumo de alta do bebê e ao tratamento médico geral; • a triagem na unidade neonatal elimina a dependência
da equipe de enfermagem para levar o bebê até o local de teste e depois retorná-lo à unidade neonatal. Por outro lado, segundo os autores algumas desvantagens na realização da triagem diretamente na unidade neonatal:

• um problema em potencial são os altos níveis de ruído geralmente encontrados na enfermaria;
• logo após o nascimento, os bebês possuem vernix (substância composta de células epiteliais descamadas, que cobre a pele do feto) nos meatos acústicos, e não é raro encontrar a presença de otite média;

• nos bebês prematuros as condições de saúde e a imaturidade podem influenciar os resultados do teste;

• a duração da estadia no hospital dos bebês saudáveis é atualmente muito curta e isto impõe problemas práticos para garantir que a triagem seja realizada antes da alta;

• alguns distúrbios da audição têm início tardio ou são progressivos e estes serão perdidos quando a audição é avaliada somente na unidade neonatal. De acordo com os autores ora citados, não é adequado realizar a triagem de um distúrbio sem a certeza de que existem serviços disponíveis para proporcionar acompanhamento adequado para os bebês e suas famílias. É possível para o audiologista perder de vista o propósito real de um programa de triagem auditiva neonatal. Com pressões para mostrarmos a efetividade do programa, há a tendência em dirigirmos a atenção para maximizar o número de bebês que são testados, com a idéia de que quanto mais bebês forem testados, melhor é o programa. O teste real de um programa de triagem, entretanto, não está em quantas avaliações foram feitas, mas sim se estas
avaliações resultaram positivamente, ou seja, em pronta identificação e tratamento adequado de um bebê deficiente auditivo. O momento mais importante do programa de triagem auditiva neonatal começa quando a atenção é dirigida para o subgrupo de bebês que falharam. O
que acontece a estes bebês é o melhor critério para medir a efetividade de um programa de identificação precoce.
É essencial que todos os bebês recebam testes de acompanhamento para confirmar ou excluir uma deficiência auditiva. Esse tem sido um objetivo difícil de ser atingido. O acompanhamento do desenvolvimento pode ser caracterizado por ações que visam avaliar e assistir o processo de desenvolvimento humano, através de observações periódicas. De acordo com Fonseca49 e Cardinalli e Xavier50, os estudos longitudinais de acompanhamento do desenvolvimento possibilitam a detecção de problemas o mais cedo possível, proporcionando a criação
de programas de intervenção.
Estudos longitudinais nos quais o recém-nascido  foi acompanhado durante períodos de tempo, apontaram para um alto índice de abstenção das mães aos retornos agendados7,20,51/54, o que reforça a necessidade de se implementar estratégias e programas mais efetivos para a prevenção da deficiência auditiva.
Pelo exposto, fica evidente que, apesar do consenso a respeito da importância do diagnóstico precoce para o melhor desenvolvimento da linguagem, cognição e socialização da criança portadora de deficiência auditiva, na prática não se consegue atingi-lo de forma sistematizada.
Tal fato também tem sido vivenciado em nossa prática clínica no ambulatório de audiologia de um hospital universitário, de referência terciária, atendendo crianças egressas da unidade neonatal ou encaminhadas por profissionais dessa instituição.

Isaac ML, Manfredi AKS Early identification of hearing loss in childhood. Medicina (Ribeirão Preto) 2005; 38 (3/4): 235-244.
Abstract: Hearing loss is important in the human communication.

Hearing loss in children can cause disturbances in speech and language acquisition, and in emotional, educational and social development.
The early diagnosis of auditory deficiency allows the precocious intervention and it should be made in the first 6 months of life.
Universal neonatal hearing screening is recommended because it evaluates every newborn and not just those presenting hearing loss.
Although behavioral tests evaluate the auditory function, the proper tests are the objective ones, such as the otoacoustic emissions and the brainstem evoked auditory potentials. The fact that they are electrophysiologic tests they don´t require the child’s participation and are useful in newborn and children.
The otoacoustic emissions evaluates the cochlear function and the evoked auditory potential evaluates the auditory function up to the brainstem. Both tests are used in the neonatal hearing screening although the registration of otoacoustic emissions is the most common due to its fast and easy application.

Keywords: Children. Hearing. Hearing Loss. Hearing Screening.

 

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Revista Médica VOLUME 38 NÚMERO 3/4 JULHO-DEZEMBRO 2005